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Sacrifício coletivo de crianças

Como arqueólogos descobriram o 'maior sacrifício em massa' de crianças
30 agosto 2019


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Especialistas acreditam que as crianças foram sacrificadas para apaziguar deuses venerados pelo povo Chimú
Uma equipe de arqueólogos no Peru descobriu restos mortais do que acreditam ter sido o maior sacrifício em massa de crianças da história.

Os corpos de 227 crianças com idade entre 5 e 14 anos foram encontrados na cidade costeira de Huanchaco, a 570 km ao norte de Lima, no Peru.



Ainda não está claro em que ano morreram, mas os especialistas acreditam que as crianças tenham sido sacrificadas há mais de 500 anos.
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Arqueólogos acreditam ainda ser possível descobrir mais corpos de crianças
A descoberta acontece pouco mais de um ano após os restos mortais de outras cerca de 200 crianças, também vítimas de sacrifícios humanos, terem sido localizados em outros lugares no Peru.


De acordo com a pesquisa, os corpos indicam que as execuções ocorreram em uma época em que o clima estava úmido e foram enterrados em frente ao mar, o que seria uma evidência de que, provavelmente, tenham sido sacrificados para apaziguar deuses do povo Chimú.

Os Chimú viviam no litoral norte do Peru e foram uma das civilizações mais poderosas da região. A civilização Chimú teve seu apogeu entre 1200 e 1400, antes de serem subjugados pelos incas que, por sua vez, acabaram colonizados pelos espanhóis.


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Os corpos de 227 vítimas, com idade entre 5 e 14 anos, foram encontrados ao norte de Lima, capital do Peru

Os Chimú adoravam um deus da lua que chamavam de Shi. Diferente dos incas, acreditavam que era mais poderoso que o sol. Os devotos regularmente usavam sacrifícios e outras oferendas durante os rituais espirituais.

O trabalho de escavação dos arqueólogos continua no lugar onde os restos foram encontrados. Eles acreditam ser possível descobrir mais corpos.

"Onde quer que você cave, há outro (corpo)", disse à AFP o arqueólogo-chefe Feren Castillo.




TEMOS QUE DESMASCARAR E DERROTAR O SATANISMO

SACRIFÍCIO DE CRIANÇAS

Testemunha nega sacrifício durante rituais em templo na Região Metropolitana de Porto Alegre

Polícia investiga suposto sacrifício de duas crianças em um ritual satânico. Líder de templo foi preso suspeito de envolvimento.

Por G1 RS e RBS TV
08/01/2018 17h57  Atualizado há 2 anos.






A prisão do suspeito de ter realizado um ritual satânico, em que duas crianças teriam sido sacrificadas, causou surpresa nos vizinhos do templo, que fica na área rural de Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A sede da seita é uma grande casa laranja cercada por um muro de tijolos e um portão, com a imagem de um pentagrama na frente.



O casal Juarez da Silveira e Adriana Machado Batista, que mora próximo ao templo, participa dos rituais. Ela nega que haja sacrifícios de seres vivos.

"O que tem ali e só frutas e verduras. E bebida que ele bebe, mas só. Nada de sangue", diz a mulher. "Na bandeja ele faz a entrega para o mestre dele, que ele tem a imagem ali, com o pedido da pessoa. Pra ganhar dinheiro, pra arrumar um serviço. Mas nada com sangue", reafirma.

"Eu ia como testemunha. Ele até trazia os clientes dele aqui, e me dizia: 'Ó Juarez, esse cliente vai ali', e depois eu ia ali acompanhar, como testemunha", completa o marido dela.

Casal diz que participou de rituais e nega que haja sacrifício de seres vivos — Foto: Reprodução/RBS TVCasal diz que participou de rituais e nega que haja sacrifício de seres vivos 


Eles se referem a Silvio Fernandes Rodrigues, líder do templo e preso por supostamente ser o autor do ritual satânico e das mortes de uma menina e de um menino. A investigação começou após corpos terem sido encontrados em um matagal em um bairro de Novo Hamburgo, também na Região Metropolitana, em 4 de setembro do ano passado. Os membros estavam em sacos plásticos e caixas de papelão.

Inicialmente, a polícia acreditou que os corpos eram de uma mulher e de uma criança. No entanto, a perícia constatou que se tratavam de duas crianças, que teriam entre 8 e 12 anos, o que dificultou a identificação, pela falta de registro das digitais.

As crianças seriam irmãs, com idades entre 8 anos e 12 anos, e teriam sido raptadas na Argentina em troca de um caminhão roubado. Agora, a polícia está em contato com as autoridades estrangeiras em busca de um DNA compatível com os dos corpos.

Além do líder do templo, três suspeitos de participar do ritual satânico estão com prisão preventiva decretada, e outros três são considerados foragidos.

Sede da seita onde ocorriam rituais satânicos na Região Metropolitana de Porto Alegre — Foto: Reprodução/RBS TVSede da seita onde ocorriam rituais satânicos na Região Metropolitana de Porto Alegre

Troca na investigação

Investigação sobre morte de duas crianças em ritual satânico no RS tem troca de delegado

A investigação do caso foi iniciada na Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo com o delegado titular Rogério Baggio. Em setembro, porém, o inquérito estava em sua fase inicial, e acreditava-se até que as crianças poderiam ser vítimas colaterais de uma disputa relacionada com o tráfico de drogas na região.

Durante as férias do titular, as investigações foram assumidas pelo delegado Moacir Fermino, que foi quem recebeu as informações sobre o envolvimento dos discípulos do templo satanista. "O deus deles, ou demônio Moloch, é especializado em sacrifício de crianças. Ele está com uma criança na mão", descreveu.

Na manhã desta segunda-feira (8), Fermino divulgou detalhes do inquérito em entrevista coletiva. Ele disse ter recebido uma "revelação divina" por dois profetas sobre o crime, mas que tem provas contundentes da autoria dos fatos.

"Uma dessas pessoas estava comigo no carro, quando teve a revelação, e a outra me ligou e me pediu para levar um caderno [onde seriam anotadas as revelações]", afirmou aos jornalistas.

À tarde, houve uma reunião entre delegados da Polícia Civil. Após, foi divulgado que a partir desta terça-feira (9) o caso será investigado pelo titular da Delegacia de Homicídios da cidade, Rogério Baggio, que reassume a posição no lugar de Fermino.

"Não houve um afastamento. O que houve é o encerramento do período de férias do titular da Delegacia de Homícidios, que reassume a titularidade do orgão policial e consequentemente a investigação", explicou o diretor do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM), delegado Fábio Motta Lopes.

Ele nega que a crença religiosa de Fermino possa ter prejudicado ou influenciado as investigações. "Apesar de ter sido utiilizado um termo, na minha visão, inapropriado, efetivamente as investigações seguiram o rumo adequado", afirmou.

"Há provas testemunhais que levam a um ritual macabro, satânico, em que duas crianças acabaram sendo sacrificadas com indícios suficientes de autoria. Se assim não fosse, o Poder Judiciário dificilmente decretaria a prisão", sustentou.
Sobre o ritual

Conforme a investigação, o líder do templo teria sido contratado por dois empresários para realizar um ritual satânico, com objetivo de conquistar prosperidade no ramo imobiliário, negócio dos dois sócios. O processo envolveria sacrifício de crianças.

"O bruxo foi a pessoa contratada por um valor aproximado de R$ 25 mil por esses dois empresários de Novo Hamburgo em troca de uma possível prosperidade no ramo econômico. E para isso, precisava haver o sacrifício de duas crianças", reafirmou Motta.

Em dezembro, foram encontradas no templo uma capa e uma máscara que eram usados nos rituais. O material estava dentro de um cofre.

A perícia já apontou que no corpo do menino "há comprovação de dosagem altíssima de álcool". A menina tinha marcas de perfuração de faca em um membro que foi localizado. O delegado informou que uma testemunha teria presenciado o sacrifício.

"Essa testemunha menciona que realmente a criança mal conseguia ficar sentada, ou seja, quase que estado de inconsciência", detalha.

Para a polícia, as crianças teriam sido decapitadas por meio de torniquetes.

"As investigações não estão encerradas. Novas diligências serão realizadas para tentarmos cada vez mais obtermos provas para confirmar se realmente foi isso que aconteceu", reforçou o diretor do DPM.

Delegado Fábio Motta, diretor do Departamento de Polícia Metropolitana, diz que investigações ainda não estão encerradas.  



Análise de provas

Depois dos corpos esquartejados terem sido encontrados, em 4 de setembro, outros membros foram localizados pela polícia no dia 18 do mesmo mês.

Os crânios das crianças ainda não foram encontrados, e o resultado da perícia, acompanhado de mais oitivas de testemunhas, vão contribuir com o inquérito.

Além disso, a análise do material encontrado no templo pode levar mais dois meses para ser concluído, uma vez que foram encontrados diversos documentos e vídeos, que ainda serão analisados.

Presos

Silvio Fernandes Rodrigues, líder do templo e apontado como realizador do ritual;

Jair da Silva, sócio que encomendou o ritual;

Andrei Jorge da Silva, um dos filhos de Jair;

Márcio Miranda Brustolin, o sétimo integrante do ritual. 

Conforme o delegado, são necessárias sete pessoas.

Foragidos

Jorge Adrian Alves, argentino que fez a troca do caminhão roubado pelas crianças no país vizinho;

Anderson da Silva, outro filho do sócio que encomendou o ritual;

Paulo Ademir Norbert da Silva, outro sócio do ramo imobiliário.

Os suspeitos negam envolvimento nas mortes e dizem não conhecer o líder do templo.

Sede do templo onde eram realizados rituais satânicos na Região Metropolitana de Porto Alegre.



Esposa de bruxo é presa em flagrante em templo satânico por furto de energia elétrica
Local fica localizado no distrito de Morungava, em Gravataí

Por Gabriel Guedes
Última atualização: 12.01.2018 às 13:54


Aline Mello foi presa em flagrante no templo onde sacrifício de crianças teria acontecido
Foto: Paulo Pires/GES

Polícia Civil esteve no templo satânico na manhã desta sexta-feira (12)
Foto: Paulo Pires/GES


Aline Mello é esposa do bruxo Silvio Fernandes Rodrigues, que teria feito ritual com duas crianças
Foto: Paulo Pires/GES


Aline Mello foi presa em flagrante no templo onde sacrifício de crianças teria acontecido
Foto: Paulo Pires/GES

Policiais do Deic fizeram nova diligência ao local do templo satânico, em Gravataí, nesta sexta-feira
Foto: Polícia Civil


Equipe da RGE acompanhou os policiais do Deic em ação no Templo Satânico, em Gravataí
Foto: Polícia Civil




A Polícia Civil descobriu nesta manhã de sexta-feira (12), durante nova diligência ao templo satânico, em Gravataí, que a energia elétrica era furtada da rede da RGE. A esposa do bruxo, Aline Mello, foi presa em flagrante com a chegada da Polícia.  No local, foram mortas e esquartejadas duas crianças. Partes dos corpos foram localizados nos dias 4 e 18 de setembro, na Estrada Porto das Tranqueiras, em Lomba Grande, zona rural de Novo Hamburgo. As cabeças dos irmãos seguem desaparecidas. As identidades deles também não foram descobertas ainda. 


Polícia Civil do RS
@policiacivilrs
Polícia Civil constata furto qualificado de energia no “templo satânico” em Gravataí, onde foram mortas as duas crianças. #DRCP_Deic


A pena, nos casos de furto de energia, é de 2 a 8 anos de prisão por crime de furto qualificado. Um inquérito foi instaurado pelo Departamento Estadual de Investigação Criminal (Deic). Uma equipe da RGE acompanhou os policiais, entretanto, a empresa ainda não informou se a denúncia partiu deles.

O local pertence ao bruxo Silvio Fernandes Rodrigues, um dos sete acusados do crime – quatro já estão detidos preventivamente. A Polícia ainda não concluiu o inquérito do caso. Ontem, o delegado titular do caso, Rogério Baggio, pediu mais 60 dias para o Judiciário para encerrar as investigações. 

'Os sete discípulos de Satanás': delegado mostra provas e fala dos envolvidos em ritual
Acusado de encomendar ritual satânico foi suplente de vereador por duas vezes em Novo Hamburgo
Outra desova de corpo é investigada no caso dos irmãos esquartejados.



Pr. Ubiratã Pinto

Catecismo,evangelismo e doutrinação satânica!

Satanistas criam curso infantil para contrapor ensino cristão em escolas dos EUA




Devotos de Lúcifer ou ativistas políticos disfarçados de religiosos? Proposta de Templo Satanista aproveita regra que permite cursos cristãos em escolas públicas e levanta discussão sobre separação entre Estado e religião nos EUA.




'Precisamos de uma filial no Brasil', diz internauta do Rio de Janeiro em site satanista!

Representantes de Deus e do Diabo na Terra estão disputando a atenção de alunos de escolas públicas nos Estados Unidos.

Desde 2001, a Suprema Corte americana permite que grupos religiosos ofereçam cursos extracurriculares a alunos da rede pública. Graças à regra, igrejas católicas e evangélicas espalharam os chamados "Clubes de Boas Notícias" por colégios de todo o país, com a missão de "evangelizar meninos e meninas com o Evangelho do Senhor, para estabelecê-los como discípulos da Palavra de Deus".



Com a imagem de um lápis escolar de três pontas, simulando um tridente, membros do Templo Satanista dos EUA decidiram aproveitar a legislação para "oferecer uma alternativa a crianças e pais" e questionar a legitimidade dos cursos cristãos na rede de ensino infantil.

"Se cursos religiosos são permitidos nas escolas, nós queremos espalhar nossos clubes por toda a nação para garantir que múltiplos pontos de vista estejam representados", disse à BBC Brasil Chalice Blythe, diretora nacional do programa "Satã Depois da Escola" (After School Satan Program, no original), do Templo Satânico dos EUA.

A estratégia inclui um convite em vídeo, com áudio invertido e imagens de crianças intercaladas com aranhas, bodes com longos chifres e outros símbolos satânicos, em que o grupo convoca estudantes para "aprenderem e se divertirem" com o satanismo.

Um livro de colorir chamado O grande livro de atividades das crianças satanistas, vendido por 10 dólares (aproximadamente R$ 33), estimula os pequenos a brincarem de "ligar os pontos para formarem um pentagrama invertido", símbolo clássico associado ao reino de Satanás.

Em coro com diversos grupos religiosos, a conservadora TFP (Tradição, Família e Propriedade) americana reagiu, classificando o projeto como "sacrilégio" e convocando fiéis a protestarem "pelo retorno da moral cristã".

"Precisamos frear a popularidade do satanismo", destacou a entidade, endossando uma onda de abaixo-assinados criados por igrejas para proibir cursos satânicos para crianças.

Ativismo x Religião

Com um discurso fortemente político, o Templo Satânico foi criado em 2014 como um novo ramo do Satanismo americano tradicional. O templo tem forte atuação em redes sociais, onde reúne mais de 100 mil seguidores - especialmente jovens. Em menos de três anos, o templo inaugurou "capítulos" (ou escritórios) em 13 Estados americanos.

Mais do que devotos do Diabo, entretanto, o projeto satanista vem ganhando popularidade entre ateus e ativistas políticos nos Estados Unidos e outros países.

"Precisamos de uma filial do templo no Brasil", escreveu um morador do Rio de Janeiro na página do grupo satanista no Facebook.

"O novo prefeito da minha cidade é um bispo evangélico e está começando a mostrar serviço em nome de Deus. Nas câmaras legislativas existem cultos para Jesus. Em nossa Constituição está escrito que somos um país secular, mas mesmo em nossa Suprema Corte temos um crucifixo na parede. Se até a nossa Justiça não respeita a Constituição, quem respeitará?", questionou o brasileiro, em meio a outros comentários críticos relacionando política e religião.

Fundador do Templo Satânico e ex-aluno de neurociência da Universidade de Harvard, o americano Lucien Greaves tem como bandeiras a defesa do conhecimento científico, das liberdades individuais e direitos humanos, da legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, da separação entre religião e Estado.



O posicionamento gera ceticismo - estes satanistas seriam mesmo religiosos ou são um grupo político que se aproveita das leis ligada a religiões?

"O Templo Satânico é uma religião igual a qualquer outra, na medida em que nós (membros) temos um senso de identidade, comunidade, estrutura narrativa, cultura e valores compartilhados", responde a satanista Blythe, em entrevista à BBC Brasil.

"Não ter crenças ou fundamentos supersticiosos não nos torna menos sinceros em nossas ações e convicções do que aqueles que mantêm a crença em uma divindade", completa.

Mas, se o foco é científico e distante de misticismos, por que a opção pela imagem do diabo?

"Satanás é um símbolo do eterno rebelde em oposição à autoridade arbitrária", responde. "Nosso é o Satanás é o herege que questiona as leis sagradas e rejeita todas as imposições tirânicas".

'Disfarce'
Grupo que 'oferecer uma alternativa a crianças e pais' e questionar a legitimidade dos cursos cristãos na rede de ensino infantil dos EUA — Foto: ReproduçãoGrupo que 'oferecer uma alternativa a crianças e pais' e questionar a legitimidade dos cursos cristãos na rede de ensino infantil dos EUA — Foto: Reprodução
Grupo que 'oferecer uma alternativa a crianças e pais' e questionar a legitimidade dos cursos cristãos na rede de ensino infantil dos EUA — Foto: Reprodução

Para o advogado constitucionalista John Eidsmoe, "a principal questão constitucional ligada a proposta de curso infantil satanista é entender se o Satanismo é uma religião".

"Não consigo prever como uma corte decidirá em relação a isso", afirmou Eidsmoe ao jornal religioso The Christian Post.

Além dos cursos infantis, a estratégia do templo Satânico inclui a instalação de monumentos dedicados a Satanás ao lado de estátuas cristãs em locais públicos e intervenções em procissões religiosas.

Para a maioria dos grupos cristãos tradicionais, estes satanistas seriam "ativistas políticos travestidos de religiosos".

"Este grupo não é legítimo. A única razão para ele existir é se opor aos Clubes de Boas Notícias, onde ensinam a moral, o desenvolvimento do caráter, patriotismo e respeito, de um ponto de vista cristão", afirmou, em nota, Mat Staver, fundador do grupo evangélico Liberty Counsel.

"O chamado grupo satanista não tem nada de bom para oferecer aos alunos. As escolas não precisam tolerar grupos que perturbem o ambiente e visam (prejudicar) outros clubes legítimos. Nenhum pai em sã consciência permitiria que seus filhos participem desse grupo", completou.

Para o pastor presbiteriano Jerry Newcobe, "um dos grandes problemas com a América contemporânea é o multiculturalismo, que abrange todos e todos sem discernimento".

"O cursos satanistas para crianças desrespeitam a lei porque querem proteger as crianças de qualquer forma de cristianismo", diz.

Programa

A proposta "Satã Depois da Escola" prevê encontros mensais de uma hora em salas alugadas por escolas públicas, nos mesmos moldes dos clubes cristãos. As reuniões incluem "uma refeição saudável, aulas de literatura, atividades de aprendizado criativo, ciências e artes".

"Todas as crianças são bem-vindas, independente de seu histórico religioso", ressaltam os satanistas na carta de apresentação do projeto a escolas.

À BBC Brasil, a porta-voz do Templo Satânico afirma que os cursos infantis não se propõem à devoção do Diabo, mas "a um currículo que enfatiza uma visão de mundo científica, racionalista e não supersticiosa", como alternativa aos dogmas do ensino cristão.

Questionada se preferiria que as aulas cristãs fossem canceladas, em vez de ter seus cursos satânicos em atividade nas escolas do país, Blythe mostra preferência pela primeira opção.

"Se o medo de os satanistas chegarem às escolas públicas for suficiente para justificar que todos os clubes religiosos sejam proibidos, veremos isso como um resultado positivo", diz a representante do grupo.

À reportagem, ela diz afirma que "os Clubes de Boas Notícias não deveriam ser permitidos em escolas públicas porque são uma ferramenta usada por fanáticos evangélicos para fazer proselitismo e doutrinar crianças jovens em sua visão extremista de mundo".

A porta-voz do Templo Satânico diz que o grupo está "trabalhando na criação de um programa de voluntariado para os cursos infantis para o ano letivo 2017-2018, que permitirá que os voluntários estabeleçam os clubes em suas escolas".

Questionado, o grupo não confirmou se obteve permissão oficial de alguma escola para a criação dos grupos no próximo ano letivo, que começa em setembro.


BRUXARIA NO BRASIL

As bruxas de Guaratuba



Elas foram acusadas de matar um menino em um ritual. O caso, que teve o mais longo julgamento do País, pode sofrer uma reviravolta. ISTOÉ revela como as acusadas foram torturadas e as suspeitas de que não é da vítima o corpo encontrado...




Ao longo de muito tempo, uma senhora que mora em Curitiba sentia uma torturante angústia nos momentos de lavar o rosto. Não conseguia molhá-lo por inteiro, muito menos enxaguá-lo. Umedecia então sob a torneira a ponta do dedo indicador da mão direita, levava-o à face, ia repetindo esse movimento e molhando a fronte ponto por ponto. Ela se chama Beatriz Abagge, tem 47 anos e é filha de Celina e Aldo Abagge, ex-prefeito da cidade de Guaratuba, no litoral paranaense. Por que Beatriz agia assim? Antes de responder a essa questão, vale registrar outro fato envolvendo ela própria e, agora, também a sua mãe.


“A janela basculante da minha cela era soldada. As guardas achavam que eu
era bruxa, me transformaria numa nuvem de fumaça e fugiria através da grade”
Beatriz Abagge, ré.



As celas da penitenciária feminina de Piraquara , cidade que se localiza no Paraná, têm uma janela basculante à frente da janela principal, que é gradeada. Em todas as celas nas quais Celina e Beatriz ficaram trancafiadas nessa cadeia, entre 1992 e 1995, tal basculante era soldado – ou “chumbado”, como diz a filha –, impedindo-se assim o seu movimento de abrir e fechar. As guardas temiam que as duas mulheres, caso o basculante pudesse ser aberto, se transformassem repentinamente em “uma nuvem quase invisível de fumaça e fugissem através de algum quadrado da grade de ferro deixando para trás um sufocante cheiro de enxofre”. As guardas acreditavam que elas eram “bruxas”, assim como nessa versão se fiava a maioria da população de Guaratuba, de Curitiba, do Paraná e de todo o País. A mídia nacional e boa parte da imprensa internacional se referiam à mãe e à filha como “dotadas de poderes de bruxaria”. Elas passaram a ser “As Bruxas de Guaratuba”. ISTOÉ esteve com Beatriz e Celina, que se encontram em liberdade, registrou com exclusividade como vivem e resgatou a sua história que já conta 19 anos. É aqui que se vai começar a responder o que levou Beatriz a não conseguir lavar o rosto como todo mundo lava e, também, o que fez com que ela e sua mãe acabassem presas na cadeia com grades protegidas contra fuga de “bruxas”. Esses dois episódios se fundem em um terrificante cenário de rapto e assassinato de criança, suposta magia negra, bárbaras torturas, rivalidade entre policiais e inimizades pessoais e políticas. E muito terror.


VÍTIMA
O garotinho Evandro, aos 6 anos, quando foi
raptado no caminho entre a escola e a sua casa



O novo e derradeiro júri

Está marcado para a quinta-feira 28, em Curitiba, o segundo júri popular a que Beatriz Abagge será submetida – ela é acusada de, com a cumplicidade de sua mãe, ter assassinado em 1992 o garotinho Evandro Ramos Caetano, de 6 anos, um alegre menino loirinho que era conhecido e amado em toda Guaratuba. Pesa ainda contra Beatriz, segundo o processo, a acusação de o “crime ter sido praticado em um satânico ritual de magia negra”: Evandro teve o peito rasgado, retiraram-lhe o coração e as vísceras, amputaram-lhe mãos e pés, escalpelaram-no e vazaram seus olhos. No primeiro júri do “caso Evandro”, realizado em 1998, mãe e filha sentaram-se no banco dos réus e foram absolvidas – é o júri mais longo da história do Brasil com 34 dias de duração. Mais demorado que o de Gregório Fortunato, segurança do ex-presidente Getúlio Vargas, acusado do assassinato do major Rubens Vaz no atentado da rua Toneleros. Mais longo que o do coronel Ubiratam Guimarães, responsabilizado pelo “Massacre do Carandiru” em São Paulo – foram 111 mortos e seu julgamento levou dez dias. Também marcou para a história o júri de Beatriz e Celina o suicídio de um dos peritos, com um tiro na cabeça sobre o túmulo de seu pai, à véspera de ele depor. O Ministério Público recorreu da sentença de absolvição da filha e da mãe, e há cerca de um mês o STF decidiu por novo julgamento. A diferença é que, dessa vez, apenas Beatriz será julgada, já que Celina está com 72 anos e pela legislação brasileira a punibilidade cessa quando completada a sétima década de vida. “Fui absolvida e serei absolvida. Eu e minha mãe fomos falsamente acusadas”, diz Beatriz, estudante de direito em Curitiba – na semana passada fez provas de direito penal (“fui muitíssimo bem”), de direito processual penal (“fui muitíssimo mal”) e de direito civil (“fui bem demais, é fácil”). “Beatriz é uma aluna exemplar, aplicada e interessada”, diz o coordenador do curso, professor Álcio Figueiredo. Tanto ele como os alunos ficaram sabendo que a Beatriz Abagge estudante é a Beatriz Abagge que foi envolvida no caso Evandro com a chegada de ISTOÉ. “A minha reação e a de todos os alunos foi a mesma: respeito”, diz Figueiredo.


“Sequestraram minha irmã pensando que ela era eu. Só descobriram o
erro quando outro acusado a chamou pelo nome de Beatriz e não de Sheila”
Sheila Abagge, psicóloga


Disputa política

Faz-se agora, aqui, uma viagem no tempo à pequena cidade litorânea de Guaratuba – 22 quilômetros de praias e um oceano de lendas e acontecimentos sombrios. Corria o ano de 1992, dia 6 de abril, e os moradores mais antigos se recordam que era “uma segunda-feira de garoa”. Caminhando sozinho pelos 100 metros que separavam – e ainda separam – a Escola Olga Silveira de sua casa, o garotinho Evandro desapareceu misteriosamente. Os seus pais, Maria e Ademir Caetano, mantinham a esperança de recuperá-lo com vida mas pressentiam o pior, até porque dois meses antes também desaparecera outro garoto, Leandro Bossi, nunca mais localizado. No sábado seguinte, 11 de abril, a polícia anunciou que o corpo de Evandro fora encontrado, sobrevoado por urubus e vilipendiado, em um matagal da cidade – próximo ao seu cadáver estava a chave de sua casa. Começou aí o martírio do luto da família. Começou paralelamente o calvário de Celina e Beatriz, respectivamente esposa e filha do prefeito Aldo Abagge, falecido em 1995 quando elas ainda estavam presas. “Sob forte escolta, porque nos julgavam perigosas assassinas, pudemos deixar a cadeia por algumas horas e visitamos o Aldo já muito doente no hospital. Falamos a ele que estávamos em liberdade para que morresse em paz”, diz Celina. A ex-primeira-dama, prima direta do cônsul da Síria no Paraná e em Santa Catarina, Abdo Dib Abage, cumpre atualmente a rotina de cuidar dos netos. Poderosa, tradicional e milionária que era, a família de origem síria e libanesa (tanto os que assinam seus nomes com dois ges quanto os que o fazem com um ge só) quebrou financeiramente e mora em uma casa cujo aluguel é pago por um genro de Celina que é desembargador. “Tudo que tínhamos foi gasto em honorários de advogados”, diz Beatriz, com a altivez dos que são acusados sem provas, empobrecem diante de tal vicissitude mas não abrem mão de seu “mais sólido patrimônio”: “A minha maior riqueza ninguém leva, a minha maior riqueza é a minha inocência e a inocência de minha mãe.”


Política



O ex-prefeito Aldo Abagge morreu em 1995
achando que a esposa e a filha estavam em liberdade

Anunciada a localização do corpo de Evandro, ou do suposto corpo como se verá mais adiante, a polícia civil começou a investigar e a enfrentar obstáculos – um deles é que durante dois meses os laudos do IML e da perícia não lhe foram fornecidos, embora estivessem concluídos. Vai entrar em cena, nesse momento e sem competência legal para cuidar do homicídio, o então grupo de elite da Polícia Militar do Paraná. Por meio de depoimentos de policiais e ex-policiais que atuaram no caso, dados com exclusividade à ISTOÉ, hoje se comprova que alguns integrantes desse grupo da PM agiram como agiam os seviciadores da ditadura, à época recém-encerrada no Brasil. “Houve tortura. Pessoas das quais os policiais militares suspeitavam foram sequestradas, levadas sem mandado de prisão e torturadas”, diz o delegado e diretor do Departamento de Crimes contra o Patrimônio, Luiz Carlos Oliveira, um dos homens mais prestigiados da polícia no Paraná. Ele fala com a autoridade de quem investigava o desaparecimento de Leandro e cruzou com as investigações sobre a morte de Evandro. “Beatriz e Celina foram seviciadas até dizerem que mataram Evandro. Outro acusado, o pai de santo Osvaldo Marcineiro, não tinha mais costas de tanto levar porrada. As costas dele ficaram negras. Era um hematoma só. Eu vi.”


MEDO E DOR





Foto atual da sala que servia de gerência na serraria: nela,
Evandro teria sido morto em suposto ritual de magia negra


















A engrenagem do horror que remete aos tempos dos porões do regime de exceção começou a funcionar, segundo diversos depoimentos, com a chegada de alguns PMs do grupo de elite. Mas como eles desembarcaram em Guaratuba? Por que Celina e Beatriz foram envolvidas? Sai-se agora momentaneamente do terreno policial e entra-se no campo político, mais especificamente no que se refere aos projetos do Conselho de Desenvolvimento do Litoral que tratava de estabelecer a “verticalização” (construção de prédios) na orla do Estado. O prefeito Aldo Abagge elaborara um plano de zoneamento que não vetava totalmente a “verticalização” nem a autorizava plenamente, ou seja, podia-se construir mas não nas regiões próximas às praias. Ele atraiu com isso pesadas rivalidades políticas, locais e estaduais, ao contrariar interesses financeiros daqueles que sonhavam em transformar Guaratuba em um canteiro de obras de altas edificações, como aconteceu com a vizinha Caiobá. Sem receber verbas do governo, Aldo se viu obrigado a majorar impostos e valores de contas para tratar o esgoto do município. Mais animosidades surgiram, algumas de ordem pessoal – politicamente o prefeito se tornou vulnerável por todos os ângulos. Recorreu ao seu protetor, o deputado Aníbal Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, mas ele nada conseguiu junto ao Poder Executivo estadual.



DITADURA

Casa na cidade de Guaratuba do ex-ditador do Paraguai
Alfredo Stroessner: base de sevícia da polícia



Sequestro e tortura

Olhando-se novamente para o campo das investigações, ao Ministério Público foi então entregue uma relação de suspeitos com nomes de pais de santo e os de Celina Abagge e de sua outra filha, a psicóloga Sheila Abagge. A família era proprietária em Guaratuba de uma tradicional serraria (50 funcionários), hoje desativada e abandonada – em seus áureos tempos fornecia madeira para a fábrica de lápis Johann Faber. No dia 2 de julho de 1992, três meses após o desaparecimento de Evandro, os policiais do grupo de elite invadiram pela manhã a residência da família que ficava em frente à prefeitura sob a acusação de que Celina e Sheila teriam sequestrado Evandro e o matado na serraria – oferecendo seu sangue, coração e vísceras a Exu, uma das entidades da umbanda, cuja imagem se localizava à esquerda da porta principal da empresa. Quanto à residência, ela já não existe, foi demolida e apenas conservaram-se, numa altura mínima, parte dos muros originais, assim como preservaram-se os umbrais. No terreno funciona o estacionamento do supermercado Brasão.


CEMITÉRIO


No túmulo (abaixo) de Evandro há fotos e brinquedos –
e muitas dúvidas se o seu corpo de fato está nele sepultado




Os policiais prenderam e transportaram em carros “chapas frias” Celina e Beatriz, achando que Beatriz era Sheila. Enquanto isso, Osvaldo Marcineiro e mais dois suspeitos já amargavam torturas na casa de veraneio em Guaratuba do ex-ditador do Paraguai Alfredo Stroessner, localizada e fotografada por ISTOÉ. Tanto em Curitiba quanto em Guaratuba, a questão de ter havido tortura é ponto pacífico. “O Ministério Público quer condenar a ré para jogar uma cortina de fumaça nas atrocidades cometidas”, diz o advogado Adel El Tasse. Beatriz foi violada sexualmente por cinco torturadores, tomou choques elétricos e padeceu de sessões de “afogamento” numa chácara – eis a explicação do motivo pelo qual ela não conseguiria durante anos lavar o rosto normalmente. “Desmaiei não sei quantas vezes durante a tortura, sangrei, urinei, evacuei. Foi estupro, choque e afogamento”, diz ela. E os torturadores só souberam que Beatriz era Beatriz, e não Sheila, quando levaram um ensanguentado Osvaldo Marcineiro à sua presença e ele a chamou pelo nome. Na mesma chácara, em outro quarto, Celina também era seviciada. Quando Beatriz não suportou mais o suplício, foi carregada para diante da mãe e implorou: “Diga tudo o que eles quiserem porque eu não aguento mais choque, não aguento mais estupros e afogamentos.” “Ela me suplicou para que eu falasse em um gravador tudo aquilo que os torturadores me ditavam”, diz Celina. Em fita cassete que compõe o processo, ouvem-se vozes ao fundo e há o constante ruído de ligar e desligar o aparelho. Mais: as respostas de Celina demonstram que alguém corrigia o que ela falava: “Com o que você matou?”, pergunta o torturador. “Com uma paulada”, responde Celina – e o gravador é desligado. Ligado novamente, ela corrige: “Com uma faca.” Desliga. Liga. Ela diz: “Não, com uma serra.” Ruído, e vem a complementação: “Serra da serraria.” “Uma investigação que começa errada só pode terminar errada”, diz o ex-policial e advogado João Ricardo Keppes de Noronha, que à época mandou apurar o que ocorrera. Dos “porões” da repressão em Guaratuba elas foram transportadas para diversos postos da Polícia Militar e finalmente à penitenciária de Piraquara – aquela onde soldavam o basculante para as “bruxas” não fugirem. Ao desembarcarem nela, cada uma das mulheres ficou trancafiada um mês em “solitárias”, nuas, sem direito a banho, sem um segundo de sol e privadas de alimentação adequada. Beatriz já começava a gargalhar sozinha a gargalhada das loucas, quando uma aranha a devolveu à sanidade. Olhando-a tecer sua teia em um canto da encardida e inóspita “solitária”, Beatriz lembrou-se de uma música de criança e voltaram-lhe as lembranças, memória e lucidez. Beatriz sabe a letra de cor: “A dona aranha subiu pela parede/veio a chuva forte e a derrubou/já passou a chuva e o sol já vem surgindo/e a dona aranha continua a subir.” Nessa cadeia Celina fazia doces a pedido da direção e numa dessas ocasiões foi escoltada a uma dependência para prepará-los. Passou por um local de onde se via bom pedaço de céu. Era noite. Noite bonita. Ela se maravilhou: “Olha a lua!” As guardas se jogaram imediatamente ao chão aos gritos de “cuidado com a bruxa!”, “a lua interfere na bruxa!”. Celina ficou atônita, as guardas se levantaram e a levaram correndo de volta à cela. Com janela “chumbada”, é claro.

“Eu era e sou vizinho da família do menino morto
O crime paralisou por meses toda Guaratuba”
Wilson Henttralt, garçom

“O corpo sepultado não é de Evandro”

A tortura será um dos pontos centrais do novo júri. Acusado por diversos órgãos de comunicação e também pelas rés de ser o comandante da sevícia, o coronel da reserva Valdir Copetti Neves rompeu o seu silêncio de 19 anos e falou com exclusividade à ISTOÉ na praça de alimentação de um shopping em Curitiba. Como quem manda um recado de que cansou de ser solitariamente o vilão da história, ele declarou: “Por que perguntar de tortura e circunstâncias de prisão somente para mim? Por que não se pergunta também ao Ministério Público e à Polícia Federal que estavam na investigação?” Nas últimas duas décadas, o coronel nunca se deixou fotografar (há apenas uma imagem antiga dele na internet). Dessa vez, ainda como quem manda um recado, até fez pose para as fotos. Há, no entanto, mais “dinamite” pronta a explodir no caso das “bruxas”. ISTOÉ teve acesso a documentos da época do desaparecimento de Evandro e a depoimentos de autoridades de Curitiba e de pessoas do povo de Guaratuba que dão conta de que o corpo que está sepultado, no terceiro túmulo para quem pisa o Cemitério Central através de sua porta principal, muito provavelmente não é o de Evandro Caetano. O Ministério Público admite que não tem fato novo para esse segundo julgamento e acabou alimentando a tese de que Evandro não está ali enterrado: em 19 anos, por 18 vezes se pronunciou contrário à exumação, atitude que não tomaria se tivesse certeza de que se trata dos restos mortais do menino.


CERTEZA
O delegado Oliveira desafia: podem
exumar o corpo, ele não é de Evandro


O túmulo é uma capela de tijolinhos com gavetas à sua esquerda. “Em qual delas está o Evandro?”, pergunta-se ao zelador do cemitério, Luiz Ferreira. De óculos escuros, fumando e negando-se terminantemente a ser fotografado, ele dispara: “Em qual gaveta? Se é que ele está aí. Quem disse que ele está aí?” O garçom Wilson Henttralt, 56 anos, que vive em Guaratuba e desde criança é vizinho da família de Evandro, também levanta dúvidas em relação ao fato de ser mesmo dele o corpo que a polícia atestou que era. “Esse crime paralisou a cidade e ainda hoje só se fala sobre ele. Houve muita confusão, acho que ninguém sabe ao certo se o corpo encontrado é o do garotinho”, diz Henttralt. “Certeza absoluta de que não é o corpo” quem tem é o delegado Oliveira: “Não é o cadáver de Evandro. Durante as investigações eu disse: pago do meu bolso as despesas de exumação. Ninguém quis me ouvir.” Três exames de DNA foram feitos na época e dois deram “inconclusivos”. O terceiro teste, com um dente de leite que a mãe de Evandro guardara em sua casa bem antes do desaparecimento do filho, constatou apenas o óbvio: que se tratava de um dente do menino. Até aí, nada. Não se estabeleceu nenhum vínculo entre esse dente de leite e o corpo. ISTOÉ revela o depoimento prestado à Justiça pelo professor de criminalística e perito criminal Arthur Conrado Drischel, que examinou local e cadáver: “O corpo não condizia com uma criança de 6 anos de idade, que no caso também não poderia condizer com a vítima Evandro Ramos que tinha 6 anos de idade (…) e todos os outros dados também não condiziam com a descrição de Evandro.” Mais: os peritos deixaram registrado o “desconhecimento da identidade da vítima”.





Por que apenas eu? Por que não perguntam sobre as prisões e tortura
para o Ministério Público e a Polícia Federal, que também investigavam?”
Coronel Neves










O delegado que ficou contra a pena de morte

Beatriz Abagge, que em breve deverá viver o derradeiro capítulo dessa história que cruzou o trágico destino de Evandro com o trágico destino de sua própria vida, foi execrada e apedrejada em praça pública, numa onda que se formou na qual as pessoas agiam dentro do conceito criado pela filósofa e cientista política Hannah Arendt em “Origens do Totalitarismo”, a partir de uma de sua reportagens para a revista americana “New Yorker”: “a solidão organizada das massas populares”. Beatriz ficou encarcerada com sua mãe por três anos e meio em Piraquara e por mais três anos em prisão domiciliar em Curitiba até o julgamento que a absolveu em 1998. Em liberdade, seu primeiro passeio com a mãe foi no Jardim Botânico, caminhada que refez com ISTOÉ. “Assim que entrei em casa, ainda em prisão domiciliar, detonei o cartão de crédito de meu irmão comprando uma porção de coisas pela televisão. Era o que eu queria fazer. Assim que conquistamos a nossa libertação, no primeiro júri, fomos passear no Jardim Botânico. Era isso também o que queríamos fazer”, diz ela. Medo de encarar novamente sete jurados? “Não tenho medo de mais nada, com certeza o pior na minha vida já veio, que foi a tortura. Nada do que virá poderá ser pior. Os tempos são outros, o estado democrático de direito está consolidado, o mundo dá voltas, as pessoas mudam.” Das voltas que o mundo dá, Beatriz é, na verdade, testemunha em carne e osso: hoje ela trabalha no próprio Poder Judiciário de Curitiba atuando no apoio e acompanhamento às medidas alternativas do Juizado Especial Criminal. Vai a Guaratuba sem medo, assim como foi no Carnaval de 1999, no ano seguinte à absolvição: aí reatou com seu namorado de antes da prisão, casou-se e com ele tem uma filha de dez anos (tem também um casal de gêmeos que adotara antes de ser presa e que já é maior de idade). Separou-se do marido, namorou um advogado 13 anos mais novo, estranhou a diferença de idade e prefere nesse momento ficar sozinha. Medo da solidão? “Não.” Me­do de nada? “Olha, tenho medo de engordar. Estou com 52 quilos para uma altura de 1,55 m. Mas de­voro chocolate e não vou fazer regime; chega a fome que passei na cadeia.” Quanto à outra parte da fala de Beatriz, a de que “as pessoas mudam”, aqui vão três exemplos.

O primeiro: Humberto Simões, morador de Guaratuba, é viúvo de Albertina Michelatti, que trabalhou na casa de Celina Abagge. Assim que o crime foi divulgado, Humberto e Albertina brigaram em casa e em público: ele acusava a mãe e a filha, ela as defendia. “Com o tempo fui vendo que houve muita trapalhada, mudei de opinião”, diz Humberto. O segundo exemplo trata de mudança na mão inversa: “Distanciando-me dos fatos, nesse instante eu as acho culpadas”, diz uma moradora que está há oito anos na cidade e não quis ser identificada. Finalmente, o terceiro exemplo envolve o delegado Oliveira, que era intransigente defensor da pena de morte. “Quando soube do crime pela televisão, eu gritei: pena de morte para essas duas ‘bruxas’. Pois bem, houve tanto erro da polícia nesse caso que hoje eu sou contra a pena de morte para qualquer ser humano.” Antes de partir de Guaratuba, na quarta-feira 6, justamente a data em que se completaram 19 anos do triste desaparecimento de Evandro, ISTOÉ foi à casa de sua família, a mesma em que ele morou. Seu pai, Ademir, nem chegou até o portão. O máximo que fez foi pôr o rosto na janela e, aos berros para que sua voz prevalecesse sobre os latidos do cachorro, limitou-se a dizer: “Não vou falar nada. Vai embora. Não tenho nada a dizer.”

O APOCALIPSE EM GUARATUBA



Até 11 de abril de 1992, o sábado em que o corpo – ou o suposto corpo – de Evandro foi localizado em um matagal de Guaratuba, o assunto que sobrevivia na cidade entre os mais velhos que vivenciaram o fato e entre os mais jovens que dele ouviram falar dava conta de um acidente natural que na noite de 22 de setembro de 1968 colocou todos em desespero e em preces: uma parte do município foi “engolida pelas águas” e submergiu na baía de Guaratuba. Desesperadas, as pessoas buscavam abrigo na Igreja Matriz Nossa Senhora do Bom Sucesso, construída por escravos e inaugurada em 1771. Até hoje a igreja está lá, intacta com suas paredes de um metro de largura, que, segundo a lenda, guardam milhares de moedas de ouro. Pois bem, na “noite em que acreditamos que seria o apocalipse”, como diz a evangélica Maria das Graças, 73 anos, os moradores queriam se abrigar na igreja porque acreditavam que “estariam livres de seus pecados naquele juízo final”. A história tornou-se durante décadas a pesada recordação. Outra viria a ocupar seu lugar, no entanto, 24 anos depois – e até os dias atuais é a que mais resiste ao desgaste do tempo: o caso das “Bruxas de Guaratuba”.

Fonte: ISTO É INDEPENDENTE.